Recorde: 9,3 milhões de empresas com conta atrasada, 8,8 milhões delas pequenas
A Serasa contou e deu recorde: 9,3 milhões de empresas com conta atrasada em agosto, e 8,8 milhões delas são micro e pequenas. Mas o número que me tirou o sono foi outro: o crédito de capital de giro de curto prazo subiu 113,9% em doze meses. Isso não é empresa investindo. É empresa pegando dinheiro emprestado para fechar o mês, e todo mês que fecha assim deixa o seguinte mais pesado. E repare: essas empresas são os seus clientes e os seus fornecedores. Ontem também foi dia de lei e de tribunal. A lei do MEI foi sancionada: teto de R$ 110 mil em 2027, dois empregados e perdão automático da dívida com a União, desde que o DAS venha em dia por seis meses. E o STF tirou o ISS da conta do PIS e da Cofins, por 6 a 5, só que quem decide se tem dinheiro de volta é o próximo recurso. Nos Bastidores, a Casas Bahia teve a recuperação judicial aceita pela Justiça com R$ 17,3 bilhões em dívidas, e a Shopee mostrou quanto custa ser vitrine de afiliado: a comissão pode chegar a 30% da venda.
InadimplênciaFique de olho
Inadimplência das empresas bate recorde: 9,3 milhões de CNPJs negativados em agosto, com R$ 244,4 bilhões em dívidas, diz Serasa
Segundo o Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian, divulgado em 21 de outubro de 2026, 9,3 milhões de empresas estavam inadimplentes em agosto de 2026, o maior número da série histórica mensal, com 68,2 milhões de dívidas que somam R$ 244,4 bilhões. A alta foi de 14,3% sobre agosto de 2025. As micro e pequenas empresas eram 8,8 milhões, com R$ 211 bilhões em dívidas e valor médio de R$ 23.902,98 por empresa. Por setor, 56% das inadimplentes são de serviços, 32% do comércio e 8% da indústria. Pela origem, 31,7% das dívidas negativadas são com empresas de serviços, 19,7% com bancos e cartões, 8,5% com cooperativas, 6,7% com contas de consumo (água, luz e gás) e 6,2% com telefonia. A Serasa cita os juros altos, a demanda por crédito, que subiu 11,2% em 12 meses, e o crédito de capital de giro de curto prazo, que subiu 113,9%.
Quem mais tem a receber dessas empresas não é o banco: é outra empresa de serviços, com 31,7% das dívidas. Ou seja, inadimplência de empresa não fica parada, ela anda de CNPJ em CNPJ, e o seu é o próximo da fila. E os 113,9% do capital de giro de curto prazo contam o resto da história: muita gente está pagando o mês com dinheiro emprestado do mês seguinte. O juro caiu um pouco, de 15% para 13,75%, e não deu tempo de ninguém respirar.
O que fazer
Esta semana: liste os clientes que compram de você a prazo, empresa ou pessoa, e veja quem atrasou nos últimos 60 dias. Para esses, reduza o limite, peça entrada ou passe para o Pix antes da entrega. Não espere o atraso virar calote para mudar a condição de pagamento.
Sancionada a lei do MEI: teto de R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028, até dois empregados e perdão automático das dívidas com a União
Foi sancionado em 21 de outubro de 2026 o Projeto de Lei Complementar 186/2026, aprovado por 461 a 4 na Câmara e por 78 a 0 no Senado. O limite anual de faturamento do MEI passa de R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e para R$ 140 mil em 2028, e o MEI pode ter até dois empregados. A lei perdoa integralmente os débitos tributários federais de MEIs com a União, inscritos ou não em dívida ativa, constituídos até 13 de outubro de 2026, incluindo multas, juros e dívidas parceladas ou na Justiça. O perdão vale a partir de 1º de janeiro de 2027, é automático, sem pedido à PGFN, e depende de o MEI pagar em dia o DAS dos seis meses seguintes. Valores já pagos em parcelamento não são devolvidos, e quem contesta a dívida na Justiça precisa desistir da ação. Segundo a Secom, mais de 3,6 milhões de MEIs têm dívidas perdoadas, que somam mais de R$ 18,7 bilhões. Empresas do Simples que faturam até o novo limite poderão voltar a ser MEI, conforme regras previstas.
Agora é lei, e a letra miúda também. O perdão não pede formulário, pede disciplina: seis DAS em dia a partir de janeiro. Quem passar dezembro achando que a dívida sumiu e atrasar a guia de fevereiro perde o perdão inteiro. E tem a pegadinha de quem já vinha pagando parcelamento direitinho: o que você pagou não volta. Quem honrou a dívida pagou, quem esperou ganhou. A lição que a regra ensina não é bonita, mas é a que ela ensina.
O que fazer
Se você é MEI com dívida antiga: não pague mais parcela de débito anterior a 13 de outubro sem falar com o contador, porque o saldo será perdoado. E coloque o DAS de janeiro a junho de 2027 no débito automático hoje. Se você é Simples e fatura até R$ 110 mil, peça ao contador a conta de voltar a ser MEI.
STF decide por 6 a 5 que o ISS não entra na base do PIS e da Cofins; quem pode recuperar o que pagou ainda depende da modulação
O Supremo Tribunal Federal decidiu em 21 de outubro de 2026, por 6 votos a 5, que o ISS não integra a base de cálculo do PIS e da Cofins (Tema 118 da repercussão geral). O voto de desempate foi do ministro Luiz Fux. Para a maioria, o ISS é um ingresso transitório, repassado ao município, e não receita da empresa, a mesma lógica aplicada ao ICMS em 2017. A Receita Federal estimou impacto de cerca de R$ 35 bilhões. A partir de quando a decisão vale ainda será definido no julgamento dos embargos de declaração: Fux propôs efeitos a partir da publicação da ata, ressalvando ações judiciais e processos administrativos em andamento e tributos de períodos anteriores ainda não pagos. Segundo a Abradt, o setor de serviços é o mais atingido. O PIS e a Cofins serão substituídos pela CBS a partir de 2027.
Vitória com asterisco, que é o tipo de vitória que o contribuinte mais conhece. O imposto que a empresa de serviço recolhe para a prefeitura deixa de virar base de outro imposto, o que é só lógica, e precisou de 6 a 5 no Supremo para virar regra. Agora vem a parte em que se decide se alguém recebe de volta o que pagou a mais durante anos. Spoiler: em 2017, com o ICMS, quem não tinha entrado na Justiça ficou só com o futuro. E o futuro do PIS e da Cofins acaba em 2027.
O que fazer
Se a sua empresa presta serviço e está no lucro presumido ou no lucro real: pergunte ao contador se ela já tem ação ou pedido administrativo sobre o ISS no PIS/Cofins e quanto isso representa por mês. Se está no Simples, a decisão não muda o seu DAS, que é calculado numa alíquota única.
Sebrae lança simulador gratuito que calcula o custo da folha na troca da escala 6x1 pela 5x2
O Sebrae lançou o Escala Sebrae, ferramenta gratuita para micro e pequenas empresas se adaptarem ao fim da escala 6x1, segundo reportagem de 21 de outubro de 2026. A partir dos cargos, do número de funcionários, das remunerações e do faturamento informados, o simulador estima a despesa salarial e compara cenários de reorganização da jornada: manter o quadro atual, contratar para cobrir folgas, usar freelancers ou pagar horas extras. O acesso é pela plataforma do Sebrae, na opção "Abrir Escala Sebrae". A Emenda Constitucional 141, promulgada em 16 de outubro de 2026, troca a escala 6x1 pela 5x2, sem redução de salário, a partir de 15 de dezembro de 2026.
Finalmente alguém entregou uma conta em vez de um discurso. A ajuda prometida para quem emprega continua no "estuda-se", mas pelo menos a calculadora chegou antes de dezembro. E ela tem o mérito de pôr na mesma tela as quatro saídas que o dono vai ter de escolher. Nenhuma é de graça. A pior é a que ninguém escolhe: deixar para resolver na semana do Natal.
O que fazer
Até o fim de novembro: rode o simulador com a sua equipe e o seu faturamento, compare as quatro saídas e escolha uma. Depois, monte a escala de dezembro já na 5x2.
Quem está afundando, quem cresce no meio da crise e o dinheiro que sumiu (ou apareceu) pelo caminho.
Afundando
Justiça aceita a recuperação judicial da Casas Bahia, com R$ 17,3 bilhões em dívidas
A 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo aprovou o processamento da recuperação judicial do Grupo Casas Bahia e de outras nove empresas do grupo, segundo o InfoMoney, em reportagem de 21 de outubro de 2026. A decisão mantém suspensas as execuções contra o grupo por 180 dias, contados de 19 de agosto, e dá 30 dias para a entrega de documentos pendentes, sob pena de revogação. A dívida declarada é de R$ 17,3 bilhões, dos quais R$ 16,4 bilhões sem garantia real. O laudo pericial apontou queda de 40,5% no valor dos estoques entre abril e agosto. No pedido, feito em 16 de agosto, a empresa informou o fechamento de quase 300 das mais de 765 lojas, prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026 e R$ 154 milhões em dívidas com micro e pequenas empresas, segundo o Movimento Econômico. A companhia atribuiu a crise aos juros altos, ao crédito restrito e à queda do consumo, e disse que a retenção de garantias de cartão e Pix pelos bancos drenaria até 60% da sua entrada de caixa.
A Casas Bahia não vendia móvel, vendia parcela. O negócio inteiro era financiar o cliente, e quem vive de financiar depende do juro mais do que do produto. Quando a Selic foi de 2% para 15%, o modelo virou do avesso. Repare também nos R$ 154 milhões devidos a micro e pequenas empresas: na fila da recuperação judicial, o fornecedor pequeno é o último a ser ouvido. Para o dono pequeno, são duas lições. Se o seu lucro depende de vender a prazo, o juro é sócio do seu negócio, e ele não pergunta antes de mudar de ideia. E se você fornece para empresa grande, olhe quanto do seu faturamento está em um cliente só.
Shopee tem 20 mil lives de vendas por dia e 10 milhões de afiliados; somada, a comissão pode chegar a 30% da venda
A Shopee faz 20 mil lives de vendas por dia, uma a cada 4,3 segundos, e recebe 700 mil vídeos curtos novos por dia, segundo dados da empresa publicados pela Exame em 20 de outubro de 2026. A rede de afiliados tem mais de 10 milhões de cadastrados e gera cerca de 1.800 pedidos por minuto, com alta de mais de 200% nos pedidos de 2025 para 2026; a Exame ressalta que o número de cadastros não mostra quantos estão ativos. O afiliado recebe a comissão padrão paga pela Shopee e, na ferramenta Comissão Extra, o lojista pode pagar um percentual adicional ao criador. Somadas, as duas podem chegar a 30% do valor da venda, um teto e não uma regra. Segundo a empresa, vendedores que fazem transmissões chegam a vender mais de dez vezes o de um dia comum, sem informar quantos atingem esse resultado.
Dez milhões de vendedores ambulantes digitais trabalhando para a plataforma, e quem paga o salário deles, em boa parte, é o lojista. A conta é simples: se a sua margem é de 25% e a comissão chega a 30%, você está pagando para alguém vender por você. Não estou dizendo para fugir do afiliado. Estou dizendo para fazer a conta antes do clique: comissão é custo de venda, igual ao frete e à taxa do marketplace, e sai da mesma margem. Quem só olha o pedido que entrou acha que está bombando. Quem olha o lucro de cada pedido sabe se está.