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O que mudou hoje para quem tem empresa

· curadoria de Roberto Machado

Banco vai precisar de autorização para oferecer crédito a cliente endividado

O Banco Central aprovou na sexta três regras para frear o crédito empurrado: o banco vai precisar de autorização para oferecer empréstimo a quem já está afogado em dívida, o cliente vai poder bloquear a propaganda de crédito e o empréstimo oferecido no meio do Pix passa a exigir consentimento. Tudo em 2027. Demorou, mas a regra finalmente admite o que todo dono de loja vê no balcão: o cliente que não paga você quase sempre está pagando o banco antes. No resto da edição, uma notícia boa para o MEI, que segue sem emitir nota para pessoa física quando a reforma começar; a última semana da nota de serviço do Simples no sistema da prefeitura; e a Black Friday, que deixou de ser uma sexta e virou um mês. Nos Bastidores, a segunda maior produtora de café do país vendeu a safra antes da alta e foi renegociar R$ 1,6 bilhão na Justiça, e a Adidas lucrou como nunca vendendo sem desconto.

CréditoFique de olho

BC aprova três regras contra o crédito abusivo: bloqueio de propaganda, autorização prévia para cliente vulnerável e consentimento para crédito no Pix

O Banco Central aprovou em 23 de outubro de 2026 três resoluções para proteger o consumidor do endividamento excessivo, segundo a Agência Brasil. A Resolução BCB 602, em vigor a partir de 31 de março de 2027, obriga os bancos a oferecer um mecanismo claro para o cliente bloquear propaganda e ofertas ativas de crédito; para clientes em vulnerabilidade financeira ou com risco de endividamento excessivo, as ofertas dependerão de autorização prévia, específica e inequívoca, e só poderão melhorar as condições do cliente, sem liberar dinheiro novo (renegociação, portabilidade ou migração de produto). A Resolução BCB 601, a partir de 1º de julho de 2027, cria o Painel de Dívidas Consolidadas, com simulação de custo antes de nova contratação e alertas de risco. A Resolução BCB 603, também a partir de 1º de julho de 2027, exige consentimento específico para oferta de crédito durante uma transação Pix, com intervalo mínimo de 24 horas entre a habilitação e a primeira oferta. O recebimento do Pix não muda: quem recebe continua recebendo o valor na hora e integral.

Durante anos, o banco ofereceu limite novo para quem já não conseguia pagar o velho, e chamou isso de inclusão financeira. Agora vai precisar de autorização por escrito do próprio afogado para jogar mais água. Para o dono, a conta é simples: o cliente que pega empréstimo no meio do Pix para pagar o almoço é o mesmo que pede para pendurar no seu caderno. Cada real que o banco deixar de empurrar em 2027 é um real a menos competindo com o seu boleto. Até lá, quem segura a regra é você.

O que fazer

Até 2027, a regra é sua: antes de vender a prazo para um cliente novo, consulte o CPF e pergunte quanto da renda ele já tem comprometida. E se você recebe por Pix, nada muda no seu recebimento: o valor continua caindo na hora e inteiro.

Fontes: Agência Brasil (23/10/2026), Metrópoles (23/10/2026) · Cliente inadimplente: como cobrar sem perder o cliente

Nota fiscalTem prazo

Sem nova prorrogação: a nota de serviço de ME e EPP do Simples sai só pelo Emissor Nacional a partir de domingo, 1º de novembro

Pela Resolução CGSN nº 191/2026, microempresas e empresas de pequeno porte optantes pelo Simples Nacional que prestam serviços sujeitos à NFS-e passam a emitir a nota pelo Emissor Nacional (web ou integração via API) a partir de 1º de novembro de 2026, que cai num domingo. Até 26 de outubro, nenhuma nova prorrogação havia sido publicada, e a Resolução CGSN nº 195, publicada no Diário Oficial de 22 de outubro, trata de outro assunto (o documento fiscal do MEI). O MEI não entra nessa regra: ele já emite a NFS-e pelo padrão nacional.

Pela régua do calendário, sobram quatro dias úteis. Pela régua da experiência, sobra menos: todo mundo vai deixar para sexta, e o sistema que funcionava às 10h de terça é o mesmo que trava às 17h de sexta. Quem não testou ainda está apostando que vai dar certo de primeira, num sistema do governo, no último dia. Eu não apostaria nem o troco.

O que fazer

Até quarta, 28: emita uma nota de teste no Emissor Nacional com a conta gov.br ou o certificado da empresa. Se o seu sistema de gestão emite as notas, peça ao fornecedor a confirmação por escrito de que ele já usa o padrão nacional.

Fontes: Receita Federal (NFS-e no Simples a partir de 1º/11), Fenacon (Resolução CGSN 191/2026) · NFS-e pelo Emissor Nacional no Simples

MEIPara saber

MEI poderá usar a declaração anual como documento fiscal nas vendas a pessoa física, e nanoempreendedor fica dispensado de CNPJ

O Decreto nº 13.140/2026 e a Resolução CGSN nº 195/2026, de 21 de outubro de 2026, regulamentam simplificações da reforma tributária do consumo para os menores negócios, segundo a Receita Federal. Para o MEI, a regulamentação permite usar a Declaração Anual Simplificada (DASN-Simei) como documento fiscal eletrônico nas operações destinadas ao consumidor final pessoa física, o que dispensa a emissão de nota nessas vendas a partir de 2027, quando a reforma começa a valer. Para o nanoempreendedor, que fatura até metade do teto do MEI, ficam dispensadas a inscrição no CNPJ e a emissão dos documentos fiscais eletrônicos dos novos tributos sobre o consumo. Segundo o Metrópoles, a dispensa do nanoempreendedor passa a valer por tempo indeterminado (antes ia até o fim de 2028), e o limite de faturamento sobe de R$ 40 mil para R$ 55 mil em 2027 e R$ 70 mil em 2028.

A lei da reforma tinha um jabuti, como os contadores chamaram: o MEI passaria a emitir nota até para o cliente que compra um bolo. Agora a declaração que ele já entrega todo ano faz o papel da nota. É a burocracia admitindo, por escrito, que não fazia sentido mandar o dono de carrinho de pipoca emitir nota fiscal para cada saquinho. Comemoro. E fico de olho, porque simplificação no Brasil costuma vir com regulamentação de 40 páginas.

O que fazer

Se você é MEI e vende para pessoa física, nada muda no seu balcão: siga sem nota nessas vendas e entregue a DASN-Simei completa e no prazo (último dia de maio), porque agora ela vale como documento fiscal. Venda para empresa continua com nota.

Fontes: Receita Federal (23/10/2026), Metrópoles (23/10/2026) · Novo limite do MEI

VendasFique de olho

Black Friday de 27 de novembro: só 20% dos consumidores pretendem concentrar as compras na sexta, e 54% vão comprar ao longo do mês

Pesquisa de intenção de compra da LWSA (dona do Bling, da Tray e do Melhor Envio), publicada pela Mercado&Consumo em 21 de setembro de 2026, mostra que 20% dos consumidores planejam concentrar as compras na sexta-feira, 27 de novembro, e 54% pretendem comprar ao longo de novembro, conforme as ofertas aparecem. Metade começa a pesquisar com mais de um mês de antecedência. O cartão parcelado sem juros é o meio preferido de 58%, contra 39% do Pix, mas 59% dizem que o desconto no Pix decide ou aumenta bastante a chance de compra. Outra pesquisa, da Helloo, com 600 consumidores em agosto, aponta que 67% comprariam antes da data se encontrassem uma boa oferta.

A Black Friday virou Black November, e quem ainda planeja uma promoção de um dia está planejando para 20% do público. O resto vai comprar de quem apareceu primeiro, e está pesquisando agora. O outro número é o do Pix: o cliente prefere parcelar, mas troca de lado por um bom desconto à vista. Desconto no Pix custa menos que a taxa do parcelado, e o dinheiro cai hoje, não em 12 vezes.

O que fazer

Esta semana, antes de anunciar qualquer oferta: defina os produtos, o desconto máximo que a sua margem aguenta e o preço com desconto no Pix. A campanha começa no início de novembro, não no dia 27.

Fontes: Mercado&Consumo / LWSA (21/09/2026), Mercado&Consumo / Helloo (07/10/2026) · Como precificar produtos e serviços

Bastidores

Enquanto isso, no mundo dos negócios

Quem está afundando, quem cresce no meio da crise e o dinheiro que sumiu (ou apareceu) pelo caminho.

Afundando

Ruiz Coffees, 2ª maior produtora de café do país, pede recuperação judicial com R$ 1,6 bilhão em dívidas depois de vender a safra antes da alta

A Ruiz Coffees pediu recuperação judicial em 8 de outubro de 2026 na Vara Regional Empresarial de São José do Rio Preto (SP), com dívidas de cerca de R$ 1,6 bilhão, das quais cerca de R$ 775 milhões sujeitas ao processo e R$ 820 milhões fora dele, em grande parte garantidas por imóveis rurais, segundo o InvestNews (20/10/2026). Os maiores credores são a Caixa (R$ 130,8 milhões), a securitizadora Vert (R$ 109,3 milhões) e o Sicoob (R$ 77,9 milhões). A empresa atribui a crise a três safras com quebra de 14% a 28% por geada, calor e estiagem, a parte da produção vendida a termo a preços fixados antes da alta do café, aos juros altos sobre dívidas atreladas ao CDI e à retração do crédito ao agro, e diz enfrentar uma crise de liquidez, não de viabilidade. Em 9 de outubro, a Justiça suspendeu as execuções por 30 dias e reconheceu o café como bem essencial; o processamento definitivo depende de uma verificação prévia em andamento.

O café disparou e a segunda maior produtora do país foi renegociar a dívida na Justiça. Parece piada, mas é contrato: ela tinha vendido a safra antes, com preço travado, e quando o preço subiu o lucro ficou com quem comprou. Somou três safras ruins e dívida no CDI, e a conta chegou. A lição para o dono pequeno vale para qualquer orçamento fechado com meses de antecedência: preço travado protege quem compra, não quem vende. Se você fecha contrato longo, ponha cláusula de reajuste. Senão, a alta do seu custo vira o lucro do seu cliente.

Fonte: InvestNews (20/10/2026)

Crescendo na crise

Adidas tem o maior lucro operacional trimestral da história, € 1 bilhão, com vendas a preço cheio e margem bruta de 54,3%

A Adidas teve lucro operacional de cerca de € 1,01 bilhão no terceiro trimestre de 2026, alta de 37% e o maior da história da empresa para um trimestre, acima dos € 742 milhões esperados por analistas, segundo a Reuters (21/10/2026). A receita subiu 9%, para € 7,25 bilhões, e a margem bruta avançou 2,5 pontos, para 54,3%, segundo a FashionUnited. A empresa atribuiu a margem às vendas a preço cheio e a um reembolso de cerca de € 200 milhões de tarifas nos Estados Unidos, que entrou como efeito pontual. O presidente-executivo, Bjørn Gulden, atribuiu as dificuldades do mercado de tênis casual ao excesso de estoque e aos descontos excessivos. A previsão de lucro operacional de 2026 subiu de € 2,3 bilhões para € 2,5 bilhões, e a ação subiu quase 3%.

Tire o reembolso da tarifa e sobra o que interessa: a Adidas lucrou mais vendendo mais coisa pelo preço da etiqueta. E o presidente dela disse com todas as letras qual é o problema do setor: estoque demais e desconto demais. A um mês da Black Friday, é o recado mais útil que você vai ler. Desconto é ferramenta para girar o que encalhou, não para comprar cliente. Quem chega em novembro com estoque sobrando vai dar desconto por obrigação. Quem chega com o estoque certo escolhe onde dar.

Fontes: KSL / Reuters (21/10/2026), FashionUnited