O que mudou hoje para quem tem empresa

· curadoria de Roberto Machado

Dois em cada três pedidos para entrar no Simples foram negados

O Brasil tem um talento especial para criar portas e esconder a maçaneta. Setembro é o mês de pedir para entrar no Simples em 2027, e a Receita acaba de contar que negou dois de cada três pedidos. Quase sempre é pendência: uma dívida esquecida, um cadastro torto, um débito que ninguém avisou. Dá para consertar, mas o relógio já está correndo. No resto da pauta, a Meta resolveu cobrar pela conversa com o seu cliente, a inadimplência bateu o maior nível desde 2011 e duas greves de estatal chegam ao TST na mesma semana. Quarta-feira leve, como se vê.

TributosTem prazo

Receita nega 119 mil dos 181 mil pedidos de opção pelo Simples Nacional

Até 18 de setembro de 2026, a Receita Federal registrou 181.172 pedidos de opção pelo Simples Nacional para 2027: 61.623 foram deferidos e 119.549 indeferidos. Quem teve o pedido negado tem 30 dias, contados da ciência do termo de indeferimento, para regularizar as pendências ou contestar. O prazo geral para pedir a opção termina em 30 de setembro.

Dois terços de reprovação. Se fosse vestibular, seria escândalo; como é a Receita, virou nota de rodapé num balanço de terça à tarde. O indeferimento quase nunca é sobre o seu negócio: é uma parcela atrasada, um débito municipal que a prefeitura nunca te cobrou, um sócio com CPF enrolado. A parte boa é que tem conserto. A parte ruim é que ninguém liga para avisar: o termo fica esperando no portal até alguém ter a curiosidade de abrir.

O que fazer

Se você pediu para entrar no Simples em setembro, entre hoje no Portal do Simples Nacional (ou peça ao contador) e confira se o pedido foi deferido. Se foi negado, leia o termo, pague ou parcele a pendência e guarde o comprovante. Não espere o dia 30.

Fontes: Receita Federal, Casa do Contabilista · Simples Nacional: como funciona para a pequena empresa

AtendimentoTem prazo

WhatsApp da API passa a cobrar as mensagens de atendimento em 1º de outubro

A partir de 1º de outubro de 2026, a Meta passa a cobrar por mensagem as respostas enviadas dentro da janela de 24 horas de atendimento na Plataforma do WhatsApp Business (API), que eram gratuitas desde novembro de 2024. As mensagens utilitárias enviadas nessa mesma janela também passam a ser cobradas. O aplicativo gratuito WhatsApp Business não muda.

Primeiro a Meta te ensinou a atender tudo pelo WhatsApp, com robô, CRM e integração. Agora que ninguém mais sabe atender de outro jeito, a conversa passou a ter taxímetro. O golpe é elegante: quem pagava era quem mandava a primeira mensagem, agora paga também quem responde. Se você usa o aplicativo verde do celular, respire, isso não é com você. Se contratou um atendente virtual ou uma plataforma de chat, a conta de outubro vai vir diferente, e o fornecedor provavelmente vai repassar com um sorriso.

O que fazer

Se o seu atendimento roda por plataforma ou robô ligado à API do WhatsApp, pergunte ao fornecedor ainda esta semana quanto vai custar cada resposta a partir de outubro e se o pacote muda. Olhe também quantas mensagens o robô manda por conversa: cada "Posso ajudar em algo mais?" agora tem preço.

Fontes: Meta for Developers, Portal de Camaquã · WhatsApp Business: como usar na sua empresa

CréditoFique de olho

Inadimplência no crédito chega a 4,9%, a maior desde 2011

A inadimplência no Sistema Financeiro Nacional chegou a 4,9% em julho de 2026, o maior nível da série iniciada em 2011, segundo o Boletim Macrofiscal do Ministério da Fazenda divulgado em 22 de setembro. O relatório atribui a alta aos juros elevados e também a mudanças nas regras contábeis dos bancos. Pela Serasa Experian, 9,2 milhões de empresas estavam negativadas em julho, 8,7 milhões delas micro e pequenas.

Cinco cortes de juros e o calote só sobe, o que diz muito sobre a distância entre a Selic do jornal e a taxa do boleto. E tem um detalhe no dado da Serasa que merece ser lido duas vezes: mais de três quartos das dívidas atrasadas das empresas não são com banco. São com fornecedor, com concessionária, com outra empresa. Tradução: o calote virou corrente. O cliente não te paga, você atrasa o fornecedor, o fornecedor atrasa o dele. E quem está na ponta da corrente sem caixa é quem quebra primeiro.

O que fazer

Puxe hoje a lista de quem te deve há mais de 30 dias e ligue para os cinco maiores. Para cliente novo, reduza o prazo ou peça entrada até o cenário melhorar.

Fontes: Folha do Estado, Let's Money · Cliente inadimplente: como cobrar sem perder o cliente

ServiçosFique de olho

Greves da Caixa e dos Correios chegam ao TST na mesma semana

O Ministério Público do Trabalho levou a greve da Caixa ao Tribunal Superior do Trabalho, com audiência de mediação em 23 de setembro, sem acordo anunciado até a noite. A greve dos Correios também continua: o TST suspendeu o julgamento do dissídio em 21 de setembro e remarcou para quinta-feira, 24, às 15h30, mantendo a exigência de 80% do efetivo em atividade.

Duas estatais, duas greves, o mesmo motivo (plano de saúde) e o mesmo pagador da conta: quem não tem nada a ver com a briga. A Caixa segura FGTS, financiamento e convênio; os Correios seguram a encomenda da sua loja virtual. Oitenta por cento do efetivo trabalhando parece muito até você descobrir que a sua entrega caiu nos outros vinte.

O que fazer

Se você vende pela internet e despacha pelos Correios, avise o cliente que o prazo pode esticar e, para pedido urgente, cote uma transportadora. Se depende da Caixa para rescisão ou crédito, siga contando com atraso até sair acordo.

Fontes: O Tempo, Metrópoles

Bastidores

Enquanto isso, no mundo dos negócios

Quem está afundando, quem cresce no meio da crise e o dinheiro que sumiu (ou apareceu) pelo caminho.

Dinheiro estranho

Contador é investigado por simular o pagamento de impostos dos clientes em Pernambuco

A Polícia Civil de Pernambuco deflagrou em 10 de setembro a Operação Pay Back, que investiga um contador de Recife e Olinda. Segundo a polícia, ele usava o certificado digital dos clientes e apresentava comprovantes falsificados de pagamento de tributos que não eram recolhidos. Uma transportadora teria perdido mais de R$ 2 milhões em cerca de dois anos, e a apuração soma cerca de R$ 287 milhões suspeitos, ligados a aproximadamente 38 empresas.

Dois anos. Foi o tempo que a transportadora levou para descobrir que o imposto que ela pagava não chegava ao governo. Não é história sobre contador: a imensa maioria faz o trabalho direito e ganha pouco para isso. É história sobre dono que terceirizou a conferência junto com o serviço. Um comprovante em PDF é só um PDF. A lição custa dez minutos por mês: o DAS e as guias pagas aparecem no portal da Receita, no seu CNPJ, com o seu acesso. Olhe você mesmo.

Fonte: Portal Contábeis

Crescendo na crise

Mercado pet deve faturar R$ 81 bilhões em 2026, e metade passa pelo pet shop pequeno

O setor de animais de estimação deve faturar R$ 81 bilhões em 2026, alta de 4,35% sobre os R$ 77,96 bilhões de 2025, segundo a Abempet. Os pet shops pequenos e médios ficam com 48% do faturamento, cerca de R$ 39 bilhões. A associação aponta que a carga tributária sobre produtos pet chega a 51%, dependendo do estado.

Cresce com crise, cresce com juro alto, cresce com o país inteiro de cinto apertado: ninguém corta a ração do cachorro. E metade desse dinheiro passa pelo balcão pequeno, o que é raro num mercado desse tamanho. Agora, repare no número que ninguém celebra: até metade do preço é imposto. Faturamento crescendo 4% com imposto de até 51% é o retrato do varejo brasileiro. Se você está nesse ramo, a pergunta não é se o setor cresce, é quanto sobra do que cresce.

Fonte: CNN Brasil

Curiosidade

Galpão logístico nunca foi tão disputado nem tão caro, e Mercado Livre e Shopee lideram

A vacância dos galpões logísticos de alto padrão caiu para 5,5% no primeiro semestre de 2026, o menor nível da série histórica, e o aluguel médio dos contratos novos chegou a R$ 30,01 por metro quadrado, o maior já registrado, segundo dados de JLL, CBRE, Binswanger e SiiLA. O Mercado Livre respondeu por 23% da área ocupada no segundo trimestre e a Shopee por 10%.

Os dois maiores inquilinos de galpão do país não fabricam nada: vendem o que é seu, guardam o que é seu e entregam o que é seu. Estão construindo a loja, o estoque e a estrada ao mesmo tempo, e cobrando pedágio em cada um. Para o pequeno que vende no marketplace, isso é conveniência hoje e dependência amanhã. Use a vitrine deles, mas tenha pelo menos um canal onde o cliente é seu, e não do algoritmo.

Fonte: Folha do Estado

Como esta página é feita

Todo dia útil, leio o noticiário e fico só com o que mexe no caixa, no prazo ou na obrigação de quem tem empresa pequena: tributo, banco, crédito, nota fiscal, trabalho. Política, crime e celebridade ficam de fora. Cada item tem link para a fonte original, que eu abro antes de escrever. O primeiro parágrafo de cada item é o fato. O segundo é a minha opinião, e eu não faço questão de esconder isso.

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