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O que mudou hoje para quem tem empresa

· curadoria de Roberto Machado

Copom mantém a Selic em 13,75%, para de cortar o juro e vê inflação de 5,6% em 2026

Ontem à noite o Banco Central parou de cortar o juro. Depois de cinco cortes seguidos, a Selic ficou em 13,75%, por unanimidade, e o comunicado trouxe as duas frases que o dono precisa ler juntas: a inflação subiu acima do teto da meta, e a atividade está desacelerando mais do que o esperado. Traduzindo para o balcão: o crédito continua caro e o cliente vai comprar menos, ao mesmo tempo. Quem empurrou o empréstimo da reforma ou do estoque para "quando o juro cair" acabou de ganhar mais um mês de espera, no mínimo. A pequena indústria já sente o aperto: a CNI mediu a pior situação financeira desde o começo de 2021, e a reclamação de falta de cliente subiu do 6º para o 2º lugar. No resto da edição, um projeto que limita a penhora do caixa da empresa por dívida trabalhista a 10% da receita mensal seguiu para o Senado, e a empresa do Simples que optou por pagar IBS e CBS fora do DAS tem até 20 de dezembro para desistir, sem volta. Nos Bastidores, um banco francês perdeu perto de 100 milhões de euros com hackers que entraram pela plataforma de um prestador, e a Simpar mostrou como se sai do prejuízo com a receita crescendo só 5,8%.

JurosTem prazo

Copom mantém a Selic em 13,75%, interrompe cinco cortes seguidos e eleva a projeção de inflação de 2026 para 5,6%

O Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu, na 282ª reunião, em 4 de novembro de 2026, manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, por unanimidade dos sete membros, segundo o comunicado do Copom. A decisão interrompe cinco cortes seguidos de 0,25 ponto, iniciados em março, que tinham levado a taxa de 15% a 13,75%, segundo o Sou Brasília. No cenário de referência, a projeção do Copom para o IPCA passou a 5,6% em 2026, 4,7% em 2027 e 3,5% no segundo trimestre de 2028, o horizonte relevante. O comunicado cita o conflito no Oriente Médio, com alta do petróleo, a inflação cheia e a média dos núcleos acima do limite superior da meta, e uma "moderação mais acentuada da atividade econômica", com o mercado de trabalho "resiliente, porém apresentando sinais de desaquecimento". O texto não indica o próximo passo e fala em "serenidade e cautela". A última reunião do ano está marcada para 8 e 9 de dezembro.

O juro parou de cair, e o Banco Central não prometeu quando volta a cortar. Quem estava esperando a Selic de 12% para pegar o empréstimo da reforma pode tirar o cavalo da chuva. Mas a frase que mais pesa no comunicado não é a do juro, é a da atividade desacelerando "mais acentuada". Em português de balcão: o cliente vai comprar menos e o dinheiro emprestado continua caro. As duas pontas do caixa apertam ao mesmo tempo, justamente no mês da Black Friday e do 13º.

O que fazer

Liste hoje as dívidas da empresa com a taxa de cada uma e troque primeiro as mais caras, cheque especial e rotativo do cartão. Não conte com corte de juro antes da reunião de 8 e 9 de dezembro.

Fontes: Banco Central do Brasil, comunicado da 282ª reunião do Copom (04/11/2026), Sou Brasília (04/11/2026) · Crédito para pequenas empresas: onde o juro é menor

MercadoFique de olho

Situação financeira da pequena indústria cai a 38,5 pontos no 3º trimestre, o pior nível desde o início de 2021, segundo a CNI

O índice de situação financeira do Panorama da Pequena Indústria, da Confederação Nacional da Indústria, caiu para 38,5 pontos no terceiro trimestre de 2026, o menor desde o primeiro trimestre de 2021, segundo o Movimento Econômico de 3 de novembro, com dados divulgados pela CNI em 30 de outubro. Eram 39,4 pontos no segundo trimestre e 41 um ano antes; a escala vai de 0 a 100. A carga tributária segue como o principal problema: na indústria de transformação, a fatia que a cita subiu de 37,3% para 41%. A demanda interna insuficiente passou de 22,9% para 26,6% das respostas e subiu do 6º para o 2º lugar entre os problemas. A falta ou o custo de matéria-prima caiu de 34,6% para 26,2%. O índice de confiança das pequenas indústrias ficou em 46,8 pontos em outubro, abaixo de 50 pelo 23º mês seguido. "O ambiente de crédito ainda é muito restritivo, principalmente por causa da elevada taxa de juros", disse a analista da CNI Julia Dias.

Repare na troca de lugar: há um ano o problema era conseguir matéria-prima, agora é conseguir cliente. Isso muda a gestão inteira. Quando falta insumo, quem tem estoque ganha; quando falta cliente, quem tem estoque paga juro de 13,75% para guardar mercadoria parada. E o imposto continua em primeiro lugar, firme, como o único item da lista que nunca desacelera.

O que fazer

Até o Natal, compre matéria-prima e mercadoria por pedido confirmado, não por previsão. Confira quanto do estoque de hoje está parado há mais de 60 dias e transforme isso em promoção antes de comprar mais.

Fonte: Movimento Econômico, com dados da CNI (03/11/2026) · Capital de giro: quanto a empresa precisa

TrabalhistaFique de olho

Projeto que limita a penhora do dinheiro da empresa por dívida trabalhista a 10% da receita mensal segue para o Senado

O Projeto de Lei 3083/2019, que altera a CLT, limita a penhora de recursos da empresa para pagar dívida trabalhista a até 10% das receitas mensais, deduzidas as despesas com os salários dos empregados, segundo a Fenacon de 4 de novembro de 2026, com informações da Agência Câmara. O percentual exato será fixado pelo juiz, de modo a garantir o pagamento da dívida em tempo razoável "sem tornar inviável a atividade empresarial". Depois de garantida a dívida, a empresa poderá obter a Certidão Positiva de Débitos Trabalhistas com efeito de negativa, que permite participar de licitação e pegar empréstimo. A proposta foi aprovada em caráter conclusivo nas comissões da Câmara, e a Casa rejeitou o recurso para que fosse votada no Plenário. O texto será remetido ao Senado. Enquanto não for aprovado lá e sancionado, nada muda.

Bloquear o caixa inteiro da empresa não paga o trabalhador mais rápido: muitas vezes fecha a empresa e manda os outros dez para a rua sem receber nada. O projeto tenta o óbvio, que é deixar a empresa viva para pagar a dívida em parcelas, e ainda protege a folha de quem continua trabalhando. Mas é projeto, e projeto na Câmara desde 2019. Até virar lei, o bloqueio pelo sistema do juiz continua levando o que encontrar na conta, inclusive o dinheiro do salário do mês.

O que fazer

Se a empresa tem processo trabalhista em fase de execução, peça ao advogado para propor ao juiz um acordo ou parcelamento antes que o bloqueio caia na conta. E não deixe o dinheiro da folha parado na mesma conta que recebe as vendas.

Fonte: Fenacon, com a Agência Câmara (04/11/2026) · Cálculo de rescisão trabalhista

Simples NacionalFique de olho

Empresa do Simples que optou por pagar IBS e CBS fora do DAS pode desistir de 3 de novembro a 20 de dezembro; a desistência não tem volta

A empresa do Simples Nacional que optou pelo regime regular do IBS e da CBS, para pagar os dois tributos fora do DAS no primeiro semestre de 2027, pode desistir da opção entre 3 de novembro e 20 de dezembro de 2026, segundo a Resolução CGSN 194/2026, publicada em 28 de setembro, conforme o NFE.io. A desistência é feita no Portal do Simples Nacional e não pode ser desfeita: quem desiste volta a recolher IBS e CBS dentro do DAS. O prazo da opção terminou em 30 de outubro. Até 15 de outubro, a Receita Federal tinha registrado 891.294 pedidos de opção pelo regime regular, segundo balanço citado pelo Simplifique, da Contmatic. Quem não optou recolhe IBS e CBS obrigatoriamente dentro do DAS de janeiro a junho de 2027.

Quase 900 mil empresas optaram, e aposto que boa parte foi no susto, porque alguém disse que o cliente empresa ia sumir sem o crédito do imposto. Pode ser verdade para quem vende para outra empresa. Para a padaria, o salão e a loja de bairro, que vendem para consumidor final, é trocar uma guia por duas apurações e mais uma obrigação, em troca de um crédito que nenhum cliente seu vai pedir. A Receita deu sete semanas para pensar de novo. Use.

O que fazer

Se a empresa optou pelo IBS e CBS fora do DAS, sente com o contador antes de 20 de dezembro com a lista dos clientes que são empresas e pedem nota com crédito. Se quase tudo vai para consumidor final, avalie desistir no Portal do Simples Nacional.

Fontes: NFE.io, sobre a Resolução CGSN 194/2026 (30/09/2026), Simplifique, da Contmatic, com balanço da Receita (16/10/2026) · Reforma tributária: o guia para a pequena empresa

Bastidores

Enquanto isso, no mundo dos negócios

Quem está afundando, quem cresce no meio da crise e o dinheiro que sumiu (ou apareceu) pelo caminho.

Dinheiro estranho

Hackers entram no banco francês Crédit Mutuel Arkéa pela plataforma de um prestador e desviam perto de 100 milhões de euros

O Crédit Mutuel Arkéa, banco com sede perto de Brest, na França, informou na quarta-feira, 4 de novembro de 2026, ter sofrido um ataque hacker de "um montante da ordem de 100 milhões de euros, segundo uma estimativa provisória", segundo a AFP, publicada pelo Yahoo Finanças. O jornal Le Télégramme citou US$ 133 milhões, ou 118 milhões de euros; o banco não confirmou esse número, mas validou a ordem de grandeza. Segundo o banco, "os atacantes passaram pela plataforma de um de nossos prestadores", usaram a conta própria do banco para transferir dinheiro a outras instituições e converteram o valor em criptomoeda. Os clientes não tiveram perda, segundo o banco; algumas transferências foram suspensas e retomadas depois. Parte dos recursos foi bloqueada, e o Ministério Público de Paris abriu investigação. O desvio foi tornado público primeiro pelo investigador independente ZachXBT, segundo a Euronews.

Um banco gasta fortunas em segurança, e a porta foi a plataforma de um prestador. Não foi o cofre, foi o fornecedor que tinha a chave. Na sua empresa, o prestador é o sistema de gestão, o escritório de contabilidade com acesso ao banco, a pessoa que configurou o Pix da loja. Quantos deles ainda têm senha que você esqueceu que deu? Revise os acessos uma vez por ano e ponha dupla aprovação em transferência grande. Golpe grande nunca chega pela porta da frente.

Fontes: Yahoo Finanças França, com a AFP (04/11/2026), Euronews (04/11/2026)

Crescendo na crise

Simpar reverte prejuízo e lucra R$ 137 milhões no 3º trimestre, com receita 5,8% maior e a dívida no menor nível desde o IPO

A Simpar, controladora de JSL, Movida e Vamos, teve lucro líquido ajustado das operações continuadas de R$ 137 milhões no terceiro trimestre de 2026, ante prejuízo de R$ 128,6 milhões um ano antes, segundo o InfoMoney de 4 de novembro. A receita líquida de serviços cresceu 5,8%, para R$ 9,5 bilhões, e o Ebitda subiu 19,9%, para R$ 3,5 bilhões, com margem de 30,4%. A dívida líquida caiu para 2,7 vezes o Ebitda, o menor nível desde a abertura de capital, em 2010, e o grupo recomprou R$ 472 milhões em dívidas da holding no trimestre. "A gente está em uma fase do planejamento que é pós-construção de escala. É foco na extração de valor", disse o diretor financeiro, Denys Ferrez.

A receita cresceu 5,8% e o resultado foi de prejuízo para lucro. A diferença não veio de vender mais, veio de ganhar mais em cada venda e de pagar dívida em vez de rolar. "Pós-construção de escala" é o nome chique para parar de crescer a qualquer custo e começar a ganhar dinheiro com o que já tem. O dono pequeno pode pular a parte de crescer até doer: olhe a margem de cada produto antes de olhar o faturamento.

Fonte: InfoMoney (04/11/2026)