O que mudou hoje para quem tem empresa

· curadoria de Roberto Machado

Simples fecha amanhã, com 238 mil pedidos negados

Amanhã, quarta, 30 de setembro, fecham duas portas de uma vez: o pedido do Simples para 2027 e a negociação da dívida ativa com a União com desconto, esta às 19h. Quem deixou para o último dia vai disputar o contador com meio Brasil. Na quinta, a nota de serviço de quem não é do Simples ganha dois campos novos, e o sistema promete não recusar a nota sem eles. Promete não recusar, repare, não promete não cobrar. E o resto da edição conta a mesma história por três lados: o juro não vai cair este ano, o marketplace fica com até 30% da venda, e metade das empresas da Bolsa que faturaram mais no semestre ganhou menos. Vender não é o problema de ninguém aqui. O problema é o que sobra.

SimplesTem prazo

Amanhã é o último dia para pedir o Simples de 2027, e os pedidos negados passam de 238 mil

O prazo para pedir a opção pelo Simples Nacional para 2027 termina amanhã, quarta-feira, 30 de setembro de 2026. No balanço publicado pela Receita Federal em 28 de setembro e atualizado em 29, eram 370.553 pedidos de opção: 132.131 deferidos e 238.422 indeferidos. Outras 586.675 solicitações foram de empresas que escolheram recolher o IBS e a CBS pelo regime regular. Segundo a Receita, os pedidos indeferidos estão no prazo legal de 30 dias para regularizar as pendências, e os números mudam à medida que chegam novos pedidos. O MEI não entra nesse prazo: a opção pelo Simei é em janeiro.

Quase dois em cada três pedidos levaram um não, e a Receita chama isso de balanço. Eu chamaria de retrato de como o dono pequeno é tratado: o sistema não te avisa da pendência em agosto, quando daria tempo, ele espera você pedir e aí nega. A boa notícia é que o não tem 30 dias de validade. A má é que esses 30 dias começam a correr com o contador atendendo todo mundo que também deixou para a última hora.

O que fazer

Se a sua empresa ainda não pediu e quer o Simples em 2027, peça hoje. Se já pediu, entre no Portal do Simples Nacional e veja se saiu deferido. Saiu indeferido? Leia o motivo no termo e resolva a pendência dentro dos 30 dias, sem esperar outubro acabar.

Fonte: Receita Federal · Simples Nacional: como funciona e quem pode entrar

Nota fiscalTem prazo

Nota fiscal de serviço passa a exigir IBS e CBS em 1º de outubro, sem rejeição até dezembro

Pelo Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 4/2026, o destaque do IBS e da CBS na nota fiscal de serviço eletrônica (NFS-e) passa a ser obrigatório em 1º de outubro de 2026 para a maior parte dos serviços sujeitos ao ISS. Plataformas digitais e alguns serviços específicos, como condomínio e locação de imóvel, começam em 1º de dezembro. Até 31 de dezembro de 2026, a nota sem essas informações não será rejeitada pelo sistema nacional, mas, segundo o comitê que orienta a NFS-e, depois do prazo de cada operação a falta dos campos deixa o documento em desconformidade e sujeito às sanções previstas no ato. Empresas do Simples Nacional e MEI só entram nas validações obrigatórias em 1º de janeiro de 2027. Em 2026 os valores são informativos: a cobrança efetiva começa em 2027.

Leia devagar: a nota não vai ser recusada, mas vai ficar errada. É o cartão amarelo guardado no bolso do juiz, que ele pode mostrar em 2027 quando o jogo já acabou. E note a ironia: o imposto ainda nem é cobrado, é só para informar. Você vai preencher de graça um campo de um tributo que não pagou, e pode ser multado se não preencher. Bem-vindo à reforma que ia simplificar.

O que fazer

Se a sua empresa presta serviço e não é do Simples (lucro presumido ou real), pergunte hoje ao contador ou ao fornecedor do sistema de notas se o emissor já preenche IBS e CBS. Na quinta, dia 1º, emita a primeira nota e confira se os campos saíram. Se é do Simples ou MEI, nada muda em outubro.

Fontes: Contábeis, LegisWeb · Reforma tributária: guia para pequenas empresas

JurosFique de olho

Mercado prevê Selic de 13,5% no fim do ano e sobe a inflação de 2026 para 4,99%

No Boletim Focus de 28 de setembro de 2026, divulgado pelo Banco Central, a mediana das projeções do mercado para a Selic no fim de 2026 ficou em 13,50% ao ano. A projeção de inflação (IPCA) para 2026 subiu pela segunda semana seguida, de 4,92% para 4,99%; a de 2027 foi de 4,30% para 4,31%. A estimativa de crescimento do PIB em 2026 caiu de 1,88% para 1,86%, a terceira queda seguida, e o dólar projetado para o fim do ano segue em R$ 5,20.

Juro alto, inflação subindo e economia esfriando, tudo na mesma semana. É a combinação em que o dinheiro emprestado fica caro, o custo sobe e o cliente compra menos. Quem está esperando o juro cair para respirar pode tirar o cavalo da chuva: o mercado não vê isso acontecer em 2026. E quem não reajusta preço há um ano já perdeu quase 5% da margem sem perceber, porque inflação não manda boleto.

O que fazer

Se você adiou uma renegociação de empréstimo esperando juro menor, faça a conta com a taxa de hoje e decida. Se o seu preço não muda há mais de um ano, compare o custo de hoje com o de setembro de 2025 antes de fechar o preço de outubro.

Fonte: InfoMoney (Boletim Focus) · Capital de giro: quanto a sua empresa precisa

VendasPara saber

Taxa de marketplace vai de 5,99% a 30% da venda, e 28% dos pequenos negócios digitais vendem neles

Pesquisa do Sebrae com a E-Commerce Brasil, divulgada em setembro de 2026, mostra que 73% dos pequenos negócios já vendem por ferramentas digitais, e 28,1% desse grupo usa marketplaces. Segundo o Sebrae, as taxas cobradas por essas plataformas vão de 5,99% a 30% do valor da venda, conforme a plataforma. Entre os que usam marketplace, 72,6% tiram até 40% da receita digital desses canais, e 78,8% trabalham com só um ou dois canais de venda. As vendas online das micro e pequenas empresas passaram de cerca de R$ 4 bilhões em 2019 para R$ 67 bilhões em 2024.

Trinta por cento. É mais do que muito dono tira de lucro na venda inteira. O marketplace é um shopping que não cobra aluguel, cobra comissão, e comissão cresce junto com você: quanto mais vende lá, mais paga. Não estou dizendo para sair. Estou dizendo que muita loja vende bem no aplicativo e fecha o mês sem saber se ganhou dinheiro lá ou só girou estoque para a plataforma.

O que fazer

Pegue um produto que você vende no marketplace e faça a conta completa: preço menos taxa, frete, embalagem e imposto. Compare com o que sobra do mesmo produto vendido na loja ou no WhatsApp. Se sobra menos, o marketplace é vitrine, e o preço lá precisa ser outro.

Fonte: O Hoje (pesquisa Sebrae e E-Commerce Brasil) · Como precificar produtos e serviços

Bastidores

Enquanto isso, no mundo dos negócios

Quem está afundando, quem cresce no meio da crise e o dinheiro que sumiu (ou apareceu) pelo caminho.

Dinheiro estranho

Metade das empresas da Bolsa que faturaram mais no semestre perdeu margem

Levantamento da consultoria Strategy&, publicado pela Exame em 26 de setembro de 2026, analisou 366 companhias abertas não financeiras. No primeiro semestre de 2026, 254 elevaram a receita em relação ao mesmo período de 2025, mas 125 delas (49,2%) perderam margem operacional. Entre as que cresceram, 83 tiveram queda no resultado operacional em reais e 115 pioraram o resultado líquido. Segundo a consultoria, as causas mais comuns são preço que não acompanha o custo, produto pouco rentável, estoque parado e prazo longo de recebimento, além de câmbio, juros, insumos e demanda fraca.

Essas empresas têm diretoria financeira, auditoria e sistema que custa mais que a sua loja inteira, e metade delas cresceu ficando mais pobre. A frase do consultor que vale o recorte: margem se perde num acúmulo de decisões de preço, de cliente e de prazo "que ninguém revisou porque a receita estava subindo". Faturamento subindo é o melhor anestésico que existe. Se a sua venda cresceu este ano, é justamente agora que você precisa olhar quanto sobrou.

Fonte: Exame

Afundando

Pão de Açúcar defende plano de R$ 4,5 bilhões na Justiça, e o MP diz que o banco vota mais que o fornecedor

O Grupo Pão de Açúcar (GPA) enviou à Justiça, em 21 de setembro de 2026, resposta às contestações de credores e do Ministério Público de São Paulo sobre o seu plano de recuperação extrajudicial, e reforçou o pedido de homologação. Segundo a empresa, o plano tem adesão de 57,49% dos créditos sujeitos, ou 52,94% se contados os créditos contestados; a lei exige mais da metade. A dívida envolvida é de cerca de R$ 4,5 bilhões. Segundo reportagem de O Tempo, o MP-SP apontou que 91,6% dos créditos vêm de instrumentos financeiros, o que concentra o poder de voto, e pediu administrador judicial e perícia dos créditos.

Na recuperação extrajudicial, o voto vale pelo tamanho da dívida. Quem emprestou bilhão decide; quem entregou mercadoria assina embaixo ou espera. O banco já tinha a renegociação na conta quando emprestou, o fornecedor pequeno não tinha. A lição para quem vende para empresa grande: cliente que representa uma fatia enorme do seu faturamento não é cliente, é sócio que não assinou contrato. Quando ele aperta, quem decide o seu prazo é o banco dele.

Fontes: O Tempo (21/09), O Tempo (28/08)

Curiosidade

Paraguai abre crédito de 15 anos a 8,5% em dólar para atrair indústria, e 230 já saíram do Brasil

Segundo o Poder360, a Agência Financeira de Desenvolvimento (AFD) do Paraguai abre em 1º de outubro de 2026 uma linha de US$ 100 milhões para indústrias, com até US$ 2,5 milhões por operação, juros a partir de 8,5% ao ano em dólar e prazo de 15 anos, com 3 de carência. Pelo levantamento do site, mais de 230 empresas saíram do Brasil para operar no Paraguai pelo regime de maquila desde 2007, cerca de 70% das mais de 320 estrangeiras no regime. Na maquila, a empresa paga 1% sobre o valor agregado e é isenta de imposto de renda.

Duzentas e trinta fábricas não atravessaram a fronteira pela paisagem. Atravessaram pela conta: 1% sobre o valor agregado de um lado, e do outro a sopa de siglas que você conhece. Você, com a sua loja ou a sua oficina, não vai se mudar para Ciudad del Este, e nem precisa. Mas a pergunta que esses industriais fizeram vale para você: quanto do seu preço é imposto, juro e taxa, e quanto é o seu trabalho? Quem não sabe o número não consegue nem reclamar direito.

Fonte: Poder360