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O que mudou hoje para quem tem empresa

· curadoria de Roberto Machado

Americanas sai da recuperação judicial e a ação sobe 25% num dia

A Justiça do Rio encerrou a recuperação judicial da Americanas, quase quatro anos depois do rombo, e a ação chegou a subir 25% num dia. Bonito. Só que no último trimestre a empresa ainda teve prejuízo de R$ 274 milhões. Pagar o que deve é a parte que o juiz confere. Voltar a lucrar é a parte que ninguém confere por você. Do outro lado do mundo, a Character.AI, que chegou a 20 milhões de usuários por mês, foi pedir proteção na Justiça americana e vendeu parte do que tinha para a Disney por US$ 20 milhões: plateia lotada nunca pagou conta. Aqui no balcão, o IBGE confirmou o que o caixa já sabia: o varejo parou em agosto, e o dinheiro a mais do cliente está indo pagar dívida. Na agenda: o Desenrola dos informais fecha segunda, dia 26, o IRPJ e a CSLL do trimestre de quem está no lucro presumido vencem dia 30, e a nota de serviço pelo Emissor Nacional vira obrigação para o Simples em 1º de novembro. Faltam 11 dias, e até agora ninguém falou em adiar.

PrazosTem prazo

IRPJ e CSLL do 3º trimestre de quem está no lucro presumido vencem na sexta, 30 de outubro

Pela Agenda Tributária da Receita Federal de outubro de 2026, vencem em 30 de outubro a quota única ou a primeira quota do IRPJ (código 2089) e da CSLL (código 2372) das empresas no lucro presumido ou arbitrado, referentes ao trimestre encerrado em 30 de setembro de 2026. Na mesma data vencem o IRPJ e a CSLL do lucro real trimestral e as estimativas mensais do lucro real referentes a setembro. Empresas do Simples Nacional não recolhem IRPJ e CSLL em guia separada: os dois tributos estão dentro do DAS.

Esse é o imposto que pega de surpresa quem saiu do Simples achando que ia pagar menos. O lucro presumido não cobra todo mês: cobra de três em três meses, de uma vez, sobre um lucro que a Receita presume que você teve, tenha tido ou não. Se o caixa não guardou o imposto de julho, agosto e setembro, a conta chega inteira no dia 30.

O que fazer

Se a sua empresa é do lucro presumido: peça hoje ao contador o valor do IRPJ e da CSLL do trimestre. Se passar do que tem em caixa, pergunte sobre pagar em três quotas mensais (a primeira vence dia 30, as outras com juros). E daqui para frente, separe todo mês a parte do imposto do trimestre.

Fonte: Receita Federal (Agenda Tributária, 30/10/2026) · Fluxo de caixa para pequenas empresas

CréditoTem prazo

Desenrola Adimplentes, que troca dívida cara de informais por juro de até 1,99% ao mês, termina na segunda, 26 de outubro

O Desenrola Adimplentes permite que trabalhadores informais, sem carteira assinada, renegociem até R$ 15 mil em dívidas de crédito pessoal sem garantia, com juros de até 1,99% ao mês. Segundo o governo, a taxa média dessas operações gira em torno de 7% ao mês. Pode aderir quem está com as parcelas em dia ou com atraso inferior a 90 dias e já pagou pelo menos quatro parcelas do financiamento. O prazo, que acabaria no fim de setembro, foi estendido por 30 dias e termina em 26 de outubro de 2026, data em que também vence a medida provisória que criou o programa. A renegociação é feita no Banco do Brasil e na Caixa, e a adesão ficou abaixo do previsto, segundo reportagem de 28 de setembro.

Um programa que troca juro de 7% ao mês por 1,99% e mesmo assim não enche. Não é falta de dívida, é falta de alguém avisando. E repare em quem pode entrar: o autônomo, o informal, o cliente que paga o fiado em dia mas está sufocado no crédito pessoal. Cliente que paga menos juro ao banco sobra mais para pagar você.

O que fazer

Até sexta: se você ou alguém da sua clientela de autônomos e informais tem crédito pessoal caro em dia, avise que o prazo fecha segunda. O caminho é a agência ou os canais oficiais do Banco do Brasil e da Caixa, nunca link recebido por mensagem.

Fontes: Diário de Pernambuco (28/09/2026), Jornal Contábil (30/09/2026) · Cliente inadimplente: como cobrar sem perder o cliente

VarejoFique de olho

Varejo cresce 0,1% em agosto, abaixo do esperado; móveis e eletrodomésticos caem 4,2%, diz IBGE

Segundo a Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE, divulgada em 15 de outubro de 2026, o volume de vendas do varejo subiu 0,1% em agosto frente a julho, quando economistas esperavam 0,7%. Sobre agosto de 2025, a alta foi de 0,4%. O varejo ampliado, que inclui veículos e material de construção, caiu 0,2% no mês. Móveis e eletrodomésticos recuaram 4,2% e hiper e supermercados, 0,3%. Equipamentos de escritório e informática subiram 6,3% e combustíveis, 1,1%. Segundo o gerente da pesquisa, Cristiano Santos, o poder de compra maior não está indo para o consumo e pode estar indo para pagar dívida ou poupar.

O próprio IBGE disse em voz alta: o cliente tem um pouco mais de dinheiro e está usando para tapar buraco, não para comprar. Com juro onde está, faz todo sentido para ele e nenhum para o seu faturamento. Quem planeja o fim de ano esperando o cliente de 2024 vai encontrar o cliente de 2026, que primeiro paga o banco.

O que fazer

Antes de fechar o pedido de Natal, olhe as suas vendas de agosto e setembro contra as do ano passado. Se caíram, compre pelo número de agora e deixe o estoque extra para quando o cliente mostrar que voltou.

Fonte: Diário do Comércio (Reuters, 15/10/2026) · Crise no varejo: os desafios financeiros do pequeno lojista

Bastidores

Enquanto isso, no mundo dos negócios

Quem está afundando, quem cresce no meio da crise e o dinheiro que sumiu (ou apareceu) pelo caminho.

Dinheiro estranho

Justiça encerra a recuperação judicial da Americanas e a ação chega a subir 25,63% no dia

A 4ª Vara Empresarial da Comarca da Capital do Rio de Janeiro aprovou o encerramento da recuperação judicial da Americanas, por entender que a companhia cumpriu as obrigações previstas no plano, segundo o Seu Dinheiro, em reportagem de 20 de outubro de 2026. No dia, a ação AMER3 chegou a subir 25,63% e, por volta das 16h30, subia 20,27%, a R$ 7,18. A recuperação começou em janeiro de 2023, com dívida em torno de R$ 42 bilhões e inconsistências contábeis estimadas em cerca de R$ 20 bilhões, segundo a InvestNews. No segundo trimestre de 2026, a empresa teve prejuízo líquido de R$ 274 milhões, ante R$ 98 milhões um ano antes, e receita líquida de R$ 3,3 bilhões, queda de 1,7%. Segundo a empresa, hoje ela é 96% loja física. O balanço do terceiro trimestre sai em 11 de novembro.

Sair da recuperação é ganhar alta do hospital, não é estar curado. A Americanas pagou o que o plano mandava e continua dando prejuízo, com receita caindo. A bolsa comemora porque o risco de quebra diminuiu, não porque a empresa voltou a ganhar dinheiro. Para o dono pequeno, a lição vale para qualquer renegociação, inclusive a do Desenrola: quitar a dívida devolve o sono, mas só a margem devolve o futuro. Se a operação que gerou o buraco continua igual, o buraco volta.

Fontes: Seu Dinheiro (20/10/2026), InvestNews (25/03/2026)

Afundando

Character.AI, que chegou a 20 milhões de usuários por mês, pede proteção judicial nos EUA e vende parte dos ativos à Disney por US$ 20 milhões

A Character.AI, plataforma de conversa com personagens de inteligência artificial, pediu proteção judicial nos Estados Unidos pelo Chapter 11, mecanismo de reorganização sob supervisão da Justiça, segundo o TechCrunch, em reportagem de 13 de outubro de 2026. A empresa aceitou vender parte dos ativos à Disney por US$ 20 milhões, mais uma licença perpétua e não exclusiva da sua tecnologia, numa oferta inicial que outros compradores podem cobrir. Em documento à Justiça, declarou ativos e passivos entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões. A venda deve ser concluída no fim de novembro ou no início de dezembro; segundo o CEO, Colin Adams, se não houver comprador, a plataforma será desligada. A empresa tinha 20 milhões de usuários ativos por mês em outubro de 2024, levantou mais de US$ 193 milhões com investidores e recebeu US$ 2,7 bilhões do Google em agosto de 2024 para licenciar seus modelos.

Vinte milhões de pessoas por mês, US$ 2,7 bilhões do Google no bolso, e o fim é uma venda de US$ 20 milhões. Plateia não é cliente, e cliente que não paga o custo de ser atendido é prejuízo com fila na porta. Cada conversa ali custava computação, e crescer só fazia a conta ficar maior. Para o dono pequeno, a pergunta é a mesma, em escala de bairro: o produto que mais sai na sua loja paga o custo de cada unidade vendida? Se não paga, vender mais só acelera o buraco.

Fonte: TechCrunch (13/10/2026)