Adiaram o split payment para 2028. Isso não é uma boa notícia.
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Adiaram o split payment para 2028. Isso não é uma boa notícia.

A Receita Federal informou que o split payment só será obrigatório entre empresas em 2028, e em 2027 começa de forma opcional. Antes de comemorar: entenda o que o adiamento faz com o seu capital de giro e por que vender mais pode piorar a sua situação.

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Por Roberto Machado11 set, 26 | Leitura: 10min

A notícia chegou no fim de agosto e o alívio foi geral: o split payment, o mecanismo que separa o imposto no momento do pagamento, só vai ser obrigatório entre empresas em 2028. Um ano a mais. Todo mundo respirou.

Eu não respirei. Porque quem comemora um adiamento desse costuma ser exatamente quem mais precisava que ele não acontecesse.

Vou te explicar o que foi adiado, o que não foi, e por que a reação mais comum a essa notícia é também a mais cara.

O QUE A RECEITA FEDERAL DISSE, E O QUE ELA NÃO DISSE

Quem falou foi Juliano Neves, subsecretário de Gestão Corporativa da Receita Federal. A frase dele foi: "ninguém vai ser obrigado enquanto não estiver disponível para todos os meios de pagamento". A adoção começa opcional, por meio de pagamento, provavelmente pelas transferências eletrônicas e depois pelo Pix, com modelos entrando ao longo do ano.

Agora a parte que quase ninguém publicou: isso é uma declaração, não é um ato oficial. Até hoje não existe norma do Comitê Gestor do IBS nem da Receita Federal fixando essas datas. O cronograma definitivo do split payment continua sem formalização.

E tem um detalhe que diz mais do que a entrevista. Em 8 de setembro de 2026 foi publicado no Diário Oficial o Ato Técnico Conjunto RFB/SUARA/CGIBS nº 4, de 28 de agosto de 2026, aprovando o Manual de Habilitação de Participantes e o Manual de Redes da Plataforma Pública do Split Payment. Ou seja: publicaram o manual de como os bancos se conectam à máquina, e não publicaram a data em que a máquina liga.

Guarde essa diferença, porque ela vai voltar. Uma data anunciada em entrevista pode mudar de novo, para frente ou para trás, sem que nada precise ser revogado. O que não muda é a obra: ela está em andamento, com manual publicado e mais de duzentas instituições financeiras sendo integradas.

POR QUE O SPLIT PAYMENT FOI ADIADO PARA 2028

Pela razão mais honesta que existe na burocracia brasileira: não ficou pronto. O split payment exige que todos os meios de pagamento e mais de duzentas instituições financeiras estejam integrados à plataforma do governo ao mesmo tempo. As próprias instituições pediram mais tempo para adaptar seus sistemas.

Leia essa frase de novo com calma, porque ela é a coisa mais reveladora do ano. Os bancos pediram prazo e ganharam um ano. Pediram com educação, por canal institucional, e foram atendidos.

Você, que vai ter que reorganizar o caixa inteiro da sua empresa por causa dessa mudança, não foi consultado. Não existe canal para o dono da oficina pedir prazo. Quando o sistema financeiro precisa de tempo, ele recebe tempo. Quando o pequeno empresário precisa de tempo, ele recebe multa, juros e uma notificação com prazo de quinze dias.

Não estou dizendo que a Receita agiu mal ao adiar. Adiar era o certo, porque impor um sistema que não funciona seria pior. Estou dizendo outra coisa: o calendário desse país é negociado por quem tem assento na mesa, e você não tem. O seu único poder é não depender do calendário deles.

O QUE CONTINUA VALENDO EM 1º DE JANEIRO DE 2027

Aqui mora o erro de leitura mais perigoso da semana. Split payment adiado não significa reforma adiada. O que continua de pé:

A CBS passa a ser cobrada em 1º de janeiro de 2027. O ano de testes de 2026, com alíquotas simbólicas e compensáveis, acaba. Isso não mudou.

Os campos de IBS e CBS na nota fiscal do Simples passam a ser obrigatórios em 1º de janeiro de 2027. Também não mudou.

E existe um prazo que vence este mês. Optantes do Simples Nacional têm até 30 de setembro de 2026 para escolher, no Portal de Serviços da Receita Federal, se vão recolher IBS e CBS dentro do DAS ou por fora, pelo regime regular, a partir de janeiro de 2027. Quem não fizer nada permanece com os tributos unificados. Os detalhes dessa decisão estão no guia da reforma tributária para pequenas empresas.

Então não, você não ganhou um ano de folga. Você ganhou um ano em uma única frente, e é justamente a frente que ninguém estava tratando.

O QUE O SPLIT PAYMENT FAZ COM O SEU CAIXA

Hoje, quando o cliente paga R$ 1.000, entram R$ 1.000 na sua conta. O imposto que está dentro desse valor só vai embora semanas depois, no vencimento. Nesse intervalo, aquele dinheiro fica com você. E fica trabalhando.

Ele paga o fornecedor na sexta. Cobre a folha no dia 5. Segura a conta de luz. Ninguém decidiu fazer isso numa reunião, não está escrito em lugar nenhum, e a maioria dos donos que faz isso nem sabe que faz. Simplesmente o dinheiro está lá, e a conta precisa ser paga.

Com o split payment, a parcela do imposto é separada no instante da liquidação e vai direto para o governo. Você recebe o líquido. O dinheiro do tributo nunca encosta na sua conta.

O split payment não aumenta imposto nenhum. Ele só desliga a luz de emergência que estava escondendo o buraco. A empresa que quebrar por causa dele já estava quebrada, só não sabia.

Roberto Machado

É por isso que eu não comemoro o adiamento. O buraco não foi adiado. Só a lâmpada que ia revelá-lo.

POR QUE VENDER MAIS PODE PIORAR A SUA SITUAÇÃO

Caixa apertado, o dono faz o quê? Vende mais. É o reflexo, é o conselho que ele recebe no grupo do WhatsApp, é o que todo palestrante repete. E é o movimento que vai enterrar uma parte das empresas quando essa conta fechar.

Porque venda não é dinheiro. Venda é uma promessa de dinheiro que já nasce devendo: devendo mercadoria, devendo folha, devendo comissão, devendo imposto. Se você recebe do cliente depois de pagar o fornecedor, cada venda nova consome caixa antes de gerar caixa. Dobre o faturamento com esse ciclo e você não dobra o lucro. Você dobra a velocidade da sangria.

Isso já é verdade hoje. O que segura essa conta de pé, na maioria das pequenas empresas brasileiras, é justamente o imposto que ainda não venceu. É ele que tapa o vão entre pagar e receber.

Agora junte as duas pontas. Quem está com o caixa curto vai passar os próximos doze meses vendendo mais para se salvar, e cada venda a mais vai aumentar a dependência do float tributário. Em 2028, quando a torneira fechar, essa empresa vai estar mais exposta do que está hoje, não menos.

O adiamento não é uma prorrogação da dívida. É uma prorrogação com juros, e os juros são o hábito.

Não é que vender seja errado, obviamente. É que vender mais sem arrumar o ciclo é apertar o acelerador com o pneu furado. Antes de vender mais, você precisa saber em quantos dias o seu dinheiro volta e em quantos dias ele sai. Esse número tem nome: capital de giro, e é o cálculo que separa quem cresce de quem incha.

O QUE FAZER COM OS 12 MESES QUE VOCÊ GANHOU

Um ano é tempo suficiente para sair da dependência do float sem sufoco. É tempo curto demais para começar em 2027.

Quatro passos para não depender do imposto que ainda não venceu
Descubra quanto do seu saldo não é seu

O número que quase ninguém sabe de cabeça.

Passo 1 de 4

Pegue o extrato de hoje e separe, do saldo, a parte que corresponde a imposto ainda não recolhido. Esse número é o tamanho exato da sua exposição ao split payment. A maioria dos donos leva um susto aqui, e o susto é justamente o ponto de partida: enquanto ele é abstrato, ninguém age.

O passo 4 é o único que resolve de verdade, e é o mais desconfortável, porque no primeiro mês ele parece que te deixou mais pobre. Não deixou. Ele só parou de te deixar parecer mais rico do que você é.

A DATA MUDOU, A CONTA NÃO

Todo mundo vai escrever que o split payment foi adiado e que dá para relaxar. Eu estou escrevendo o contrário: 2028 é o ano em que a sua empresa vai descobrir se ela era lucrativa mesmo ou se ela estava usando o dinheiro do governo como empréstimo de giro sem juros e sem contrato.

Essa resposta você não precisa esperar dois anos para ter. Ela está no seu extrato de hoje, e o passo 1 ali em cima leva vinte minutos.

Se o número te assustar, o caminho é projetar o fluxo de caixa dos próximos 90 dias e levar isso para a conversa com quem cuida da sua contabilidade. A pauta de reunião com o contador já tem espaço para as perguntas da reforma, incluindo a decisão do Simples que vence dia 30.

Uma última coisa. Se a sua reação ao ler isso foi "então eu preciso vender mais para dar conta", volta dois títulos e lê de novo. Era exatamente isso que eu queria evitar.

Produzido por Roberto Machado com assistência de IA e revisão editorial.

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