
Por que 232 Empresas Foram para o Paraguai (e o que Isso Diz Sobre a Sua)
Não é fuga e não é solução para a maioria. Mas o fenômeno do Paraguai revela tudo sobre o custo Brasil e sobre como o empresário pequeno precisa pensar em 2026.

Estou escrevendo isso do Paraguai. Não de férias. Cuidando da minha documentação. Então tenho uma visão de dentro do que vou falar aqui.
Nas últimas semanas, o tema explodiu no noticiário: 232 empresas brasileiras foram para o Paraguai desde 2007. O Grupo Dass, que fabrica os tênis da Nike e da Adidas, investiu US$ 40 milhões lá. A Lupo foi. A Karsten foi. A Kidy foi. JBS e M.Dias Branco também estão na lista.
Você leu isso e talvez tenha pensado duas coisas ao mesmo tempo: "Por que eu não fiz isso?" e "Mas como eu faria isso?"
A resposta para as duas perguntas é a mesma: provavelmente você não pode. E não é culpa sua.
O FENÔMENO REAL: A CONTA QUE FECHA LÁ E NÃO FECHA AQUI
Não é moda. É aritmética.
O Paraguai tem 10% de imposto sobre renda. O Brasil cobra 34% (CSLL mais IRPJ). A energia industrial no Paraguai custa até 60% menos, graças a Itaipu. A carga tributária total dentro do regime de maquila fica em 12%, em média. No Brasil, pode chegar a 80%.
Brasil
34%
IR sobre lucro
até 80%
carga tributária total
Paraguai (maquila)
10%
IR sobre lucro
12%
carga tributária total
Comparativo de carga tributária Brasil x Paraguai no regime de maquila
O resultado: lucro 150% maior do outro lado da fronteira. 25.000 empregos saíram do Brasil. As exportações das maquiladoras brasileiras no Paraguai chegaram a US$ 1,26 bilhão em 2025, recorde histórico. Em janeiro de 2026, já somavam US$ 115 milhões, 15% acima do mesmo período do ano anterior.
Os números não mentem. Eles incomodam. Mas não mentem.
MAS QUEM REALMENTE FOI: O PERFIL QUE A MANCHETE NÃO CONTA
Esse é o ponto que a maioria dos artigos ignora. E é o mais importante.
As empresas que foram para o Paraguai não são qualquer empresa. São grandes grupos industriais. Manufatura pesada. Intensiva em energia. Voltada para exportação. O Grupo Dass levou US$ 40 milhões para abrir a Dasstex, a subsidiária paraguaia que produz para a Nike e a Adidas. A Karsten fabrica toalhas lá. A Lupo faz malhas. A Kidy, calçados infantis.
A Lei de Maquila não foi feita para você
O regime de maquila é voltado para empresas estrangeiras que produzem para exportação. Você presta serviço localmente? Tem varejo? Atende o mercado brasileiro? A conta não fecha. Não porque você é inferior a quem foi. Porque o modelo foi desenhado para indústria exportadora de escala. São universos diferentes.
Ir para o Paraguai não é estratégia de PME. É estratégia de grupo industrial que já tem escala, capital e produto voltado para exportação, e que precisa de mais margem para continuar competindo globalmente. Nem a Lupo fez isso de um mês para o outro.
Entender isso não fecha a janela. Pelo contrário. Abre outra.
O PARAGUAI COMO ESPELHO, NÃO COMO DESTINO
O fenômeno do Paraguai não é o problema. É o sintoma.
O problema é o custo Brasil. E esse problema você resolve aqui, no seu negócio, com as ferramentas que você já tem. Não esperando o governo agir. Não esperando a reforma tributária terminar em 2033. Não esperando condições ideais. Condições ideais não existem. Pergunte para qualquer um que já foi para o Paraguai.
“O empresário que foi para o Paraguai não fugiu do Brasil. Ele organizou a informação, fez as contas com frieza e agiu. Você pode fazer exatamente isso sem tirar o passaporte da gaveta.”
Roberto Machado
Antes de olhar para fora, algumas perguntas que você deveria conseguir responder agora:
- Qual é a sua carga tributária real? Não o que o contador disse uma vez. O número que você usa para tomar decisões hoje.
- Qual é o custo de energia sobre o seu faturamento?
- Você revisou seus fornecedores nos últimos 12 meses?
- Quais são os 3 maiores centros de custo da sua operação?
- O seu regime tributário ainda é o mais adequado para o seu porte atual?
Se você não consegue responder metade dessas perguntas de cabeça, você tem um problema de informação antes de ter um problema de custo. A diferença entre quem foge e quem decide está na qualidade da informação que antecede a ação. Fuga é reação. Decisão é processo.
2026 É ANO DE ELEIÇÃO: E ISSO MUDA O JOGO PARA VOCÊ
Grande empresa tem margem para absorver mudança de cenário. Pequena empresa não. Você opera mais perto do zero. Cada ponto percentual de custo a mais corta lucro real. Cada mudança tributária sem preparação vira crise de caixa.
Ano de eleição amplifica incerteza. O que vai acontecer com o Simples Nacional? Com o eSocial? Com a reforma tributária em andamento? Ninguém sabe com exatidão. E essa incerteza é exatamente o motivo para você não esperar o cenário se definir antes de começar a se mover.
Por que o pequeno empresário precisa ser mais inteligente
Sem margem para errar por falta de informação
Sem tesouraria para absorver surpresa tributária
Sem departamento jurídico para interpretar mudança na madrugada
Tem que acertar mais, com menos
Como armar o gatilho para cada cenário
Não tente prever o que vai acontecer. Esse é o jogo dos analistas. O seu jogo é outro: mapear os cenários possíveis e decidir com antecedência o que você vai fazer em cada um.
Se o cenário A acontecer (mudança no Simples Nacional), faço X. Se for B (continuidade com pressão de juros), faço Y. Se for C (virada política forte), faço Z. Quando o cenário se definir, você age em dias. Concorrentes que esperaram para ver ainda estão na fase de "vamos analisar o que aconteceu".
Antecipação não é pessimismo. É profissionalismo. Quem prevê os cenários age rápido quando um deles se confirma. Quem só reage paga mais caro pela mesma mudança, porque chegou atrasado.
OBSERVAR E ORIENTAR ANTES DE DECIDIR
O método OODA veio da aviação militar. Sempre nessa sequência. Cortar uma etapa custa caro.
O
Observe
Dados reais da sua empresa
O
Oriente
Contexto e cenários possíveis
D
Decida
Com intenção, não por impulso
A
Aja
Rápido, quando o cenário se confirma
O problema não é a Ação. É pular o Observe e o Oriente.
O empresário que reage pula direto para a Ação. Age por impulso, medo ou imitação. Vê a Lupo ir para o Paraguai e pensa em ir também, sem fazer as contas. Vê o concorrente lançar algo e copia sem entender por que ele lançou.
O OO do OODA é o que o método do Arquivo Gestor resolve: organizar a informação que você precisa para decidir com clareza. Sem ela, a decisão é um chute bem-intencionado. Com ela, é uma aposta calculada.
Empreender é também um teste de sanidade. Aterrar na verdade, mesmo quando ela é dura, é o que separa quem cresce de quem fica rodando. A verdade sobre o Paraguai é dura: a maioria não pode ir. Mas todos podem usar o mesmo processo mental de quem foi.
O CAMINHO DA ÁGUA
A água não empurra. Ela encontra o caminho.
O empresário que foi para o Paraguai encontrou o caminho dele. Funciona para ele. Para a maioria de nós, esse caminho não existe. Não por falta de vontade, mas porque o perfil não se encaixa. E forçar um caminho que não é o seu custa mais do que o problema que você está tentando resolver.
Mas a água presa não desiste. Ela muda de estado. Vira vapor. Passa por onde parecia impossível.
Seu caminho da água não vai virar manchete. Mas vai funcionar:
- Revisar o regime tributário: Simples, Presumido ou Real. Quando foi a última vez que você fez essa conta de verdade?
- Renegociar fornecedores que você não questiona há dois anos porque "sempre foi assim".
- Cortar custos onde ninguém estava olhando, porque todo mundo estava olhando para o Paraguai.
- Reorganizar o fluxo de caixa antes que o ano eleitoral traga a turbulência que ele sempre traz.
Fricção baixa. Começa hoje, com o que você tem. Enquanto os outros esperam o cenário ideal, você já está se movendo. Quando o cenário se definir, você vai estar na frente. Não por sorte. Por ter organizado a informação, mapeado os cenários e armado o gatilho com antecedência.
Para continuar construindo essa base, veja o artigo sobre planejamento estratégico simples para pequenas empresas e explore mais na área de Administração.
A OPORTUNIDADE REAL: HERDAR O MERCADO
Tem uma peça faltando nesse raciocínio.
Quando 232 empresas saem do Brasil e muitas outras quebram no processo, o mercado não vai junto. A demanda continua. O cliente continua precisando do produto ou serviço. A lacuna fica. E alguém vai preenchê-la.
A pergunta é: você vai estar de pé quando isso acontecer?
Ambientes difíceis são seletivos. Eliminam os que ficaram sem caixa primeiro, os que não anteciparam, os que esperaram condições melhores para se organizar. Sobram dois perfis.
Perfil 1
O Resistente
Cuida do capital de giro como se fosse oxigênio. Porque é. Em ciclo de aperto, quem fica sem caixa primeiro morre primeiro. Não importa o produto, a qualidade ou o tempo de mercado. Sem caixa, a operação para.
Muitos vão quebrar não por serem derrotados pela concorrência, mas por ficarem sem ar enquanto esperavam o cenário melhorar.
Perfil 2
O Visionário
Acerta mais previsões do que erra. Perfil mais arriscado e mais recompensado. Não espera o cenário se definir para se posicionar. Move-se antes, quando o ativo está barato e a janela ainda está aberta.
Quem acerta a previsão compra o terreno antes da valorização. Quem erra, paga caro pela lição. Por isso é o mais arriscado.
“O mercado é como o oceano. A maré baixa não é o fim. É o momento em que você decide se vai estar na água quando a onda do próximo ciclo chegar. Quem estiver, surfa. Quem não estiver, assiste da praia.”
Roberto Machado
O Brasil vai atravessar esse ciclo difícil. Alguns vão para o Paraguai. Alguns vão quebrar. O mercado e a demanda estarão aqui. O ciclo vai virar. Sempre vira.
A questão não é se a onda vai chegar. É se você vai estar na água quando ela chegar.
Perguntas Frequentes
Q:Qualquer empresa pode usar a Lei de Maquila no Paraguai?
Não. A Lei de Maquila foi criada para empresas estrangeiras voltadas para exportação, especialmente manufatura industrial. Para operar nesse regime, a empresa precisa produzir no Paraguai e destinar os produtos principalmente para fora do país. Comércio local, prestação de serviço para o mercado brasileiro e varejo não se encaixam no modelo. O investimento inicial também é alto: o Grupo Dass aportou US$ 40 milhões apenas para abrir a operação.
Q:Quais empresas brasileiras já operam no Paraguai?
Grandes grupos industriais como Lupo (malhas), Karsten (toalhas), Kidy (calçados infantis), JBS, M.Dias Branco e o Grupo Dass (fabricante dos tênis Nike e Adidas) já operam no Paraguai. Ao todo, 232 empresas brasileiras foram para lá desde 2007, atraídas por carga tributária média de 12%, energia até 60% mais barata e imposto de renda de 10% sobre o lucro.
Q:O que o empresário pequeno pode fazer para reduzir o custo Brasil na prática?
Revisar o regime tributário para garantir que o atual ainda é o mais adequado para o porte da empresa. Renegociar contratos de fornecedores que não são revisados há mais de um ano. Mapear os 3 maiores centros de custo e atacar cada um com intenção. Reorganizar o fluxo de caixa antes que a incerteza eleitoral chegue. São ações sem glamour e sem manchete, mas executáveis hoje, sem capital de US$ 40 milhões.
Q:Por que o ano eleitoral de 2026 importa para quem tem pequena empresa?
Porque pequenas empresas operam com margem menor e têm menos capacidade de absorver mudanças tributárias e regulatórias sem preparação. Em anos eleitorais, incerteza aumenta e políticas podem mudar de direção. Quem mapeia os cenários possíveis com antecedência e define o que vai fazer em cada um consegue agir em dias quando o cenário se confirma. Quem espera para ver o que acontece já começa atrasado.
Q:Existe alguma oportunidade para quem fica no Brasil enquanto outros saem ou quebram?
Sim. Quando empresas saem do Brasil ou fecham, o mercado e a demanda não desaparecem. A lacuna fica. Quem sobrevive ao ciclo difícil herda a parcela de mercado dos que saíram. Dois perfis têm mais chance: o resistente, que protege o capital de giro e atravessa o ciclo sem ficar sem caixa, e o visionário, que antecipa o próximo ciclo e se posiciona antes que os outros percebam a mudança. Ambientes difíceis são seletivos. Quem estiver de pé quando o ciclo virar surfa a próxima onda.
Produzido por Roberto Machado com assistência de IA e revisão editorial.
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